Dos coelhos…

Esta semana anda tudo num frenesim depois do Papa falar da Paternidade Responsável.

Logo apareceu um coro de pessoas a dizer, que mais uma, vez o Papa está a revolucionar o pensamento da Igreja. Inclusivamente, um padre que respeito muito, veio para a televisão dizer que o termo Paternidade Responsável é um termo da Organização Mundial de Saúde, e que “é a primeira vez que a Santa Sé, com um Papa, utiliza esta linguagem”. Ora confesso que fiquei envergonhado por alguém que até é suposto ser especialista nos assuntos da família enganar-se tanto (e por vergonha prefiro não dizer quem é).

A realidade é que a expressão Paternidade Responsável está nos documentos da Igreja há pelo menos 47 anos, desde a Humae Vitae do Papa Paulo VI. Já o Concílio Vatinano II, no nº 50 da Gaudium et Spes (7 de Dezembro de 1965) aponta para o conceito e fala da responsabilidade na procriação:

“os esposos cristãos, confiados na divina Providência e cultivando o espírito de sacrifício, dão glória ao Criador e caminham para a perfeição em Cristo quando se desempenham do seu dever de procriar com responsabilidade generosa, humana e cristã” (GS, 50).

Contudo, o termo aparece já plenamente formulado na Humae Vitae de Paulo VI (25 de julho do ano de 1968). E não aparece uma vez, mas seis. Diz Paulo VI:

“Sendo assim, o amor conjugal requer nos esposos uma consciência da sua missão de “paternidade responsável”, sobre a qual hoje tanto se insiste, e justificadamente, e que deve também ser compreendida com exactidão. De fato, ela deve ser considerada sob diversos aspectos legítimos e ligados entre si.

Em relação com os processos biológicos, paternidade responsável significa conhecimento e respeito pelas suas funções: a inteligência descobre, no poder de dar a vida, leis biológicas que fazem parte da pessoa humana.

Em relação às tendências do instinto e das paixões, a paternidade responsável significa o necessário domínio que a razão e a vontade devem exercer sobre elas.

Em relação às condições físicas, económicas, psicológicas e sociais, a paternidade responsável exerce-se tanto com a deliberação ponderada e generosa de fazer crescer uma família numerosa, como com a decisão, tomada por motivos graves e com respeito pela lei moral, de evitar temporariamente, ou mesmo por tempo indeterminado, um novo nascimento” (HV, 10).

João Paulo II segue o desenvolvimento deste ensinamento da Igreja e na Catequese das Quarta-feiras de 01 de Agosto de 1984 desenvolve o tema: “A paternidade e a maternidade responsáveis à luz da Gaudium et Spes e Humanae Vitae”.

Para quem não conhece, eis o texto dessa Catequese:

“1. Nós escolhemos para o tema de hoje da “paternidade responsável”, à luz da Constituição Gaudium et Spes e da encíclica Humanae vitae.

A Constituição conciliar, resolver o problema, se limita a reiterar as premissas fundamentais, o documento papal, no entanto, vai mais longe, dando a essas instalações e que contenham mais específico.

O texto do Conselho diz: “… Quando se trata, então, do amor conjugal com a transmissão responsável da vida, o comportamento moral não depende apenas da intenção sincera e avaliação das motivações, mas ser determinado por critérios objectivos tomados da natureza da pessoa e seus actos, preservar o sentido da mútua doação e da procriação humana no amor verdadeiro é impossível sem cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal “(Gaudium et Spes, 51).

E o Conselho acrescenta: “Fundado nestes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja para ir por caminhos que o magistério, para explicar a lei divina, falha em controle de natalidade” (Gaudium et Spes, 51).

2. Antes dessa passagem (cf. Gaudium et Spes, 50), o Conselho ensina que o casal humano e cristão responsavelmente exercer as suas funções e, com reverência dócil a Deus “(Gaudium et Spes, 50). O que significa que: “Por acordo mútuo e do esforço comum, irá formar uma opinião em linha reta, olhando tanto no seu próprio bem pessoal e o bem dos filhos, já nascidos ou ainda por vir, discernir as circunstâncias de tempo e do estado de vida, tanto material como espiritual e, finalmente, tendo em conta o bem da família, da sociedade temporal e da própria Igreja “(Gaudium et Spes, 50).

Neste ponto palavras são particularmente importantes para determinar, mais precisamente, o caráter moral de uma “paternidade responsável”. Nós lemos: “Este julgamento, em última análise, devem formar os cônjuges pessoalmente diante de Deus” (Gaudium et Spes, 50).

E continua: “Em suas ações, os esposos cristãos estão conscientes de que não pode proceder como achar melhor, mas deve sempre pautar-se pela consciência, que deve obedecer à lei divina em si, obediente ao Magistério da Igreja , que autenticamente interpreta que a legislação à luz do Evangelho. Essa lei divina revela o significado pleno do amor conjugal, protege e promove o verdadeiro lado humano “(Gaudium et Spes, 50).

3. A Constituição conciliar, mas apenas lembrando as premissas essenciais para a “paternidade responsável”, os destaques em um inequívoco totalmente, especificando os elementos constitutivos da parentalidade tal, ou seja, o julgamento maduro em sua consciência pessoal relação com a lei divina, autenticamente interpretada pelo Magistério da Igreja.

4. A Encíclica Humanae vitae, com base nas mesmas instalações, mais avançado, oferecendo orientações específicas. Isto é principalmente sobre como definir “paternidade responsável” (Humanae vitae, 10). Paulo VI é clarificar este conceito, caro e excluindo os vários aspectos de antecedência, reduzindo-as a um dos “parcial”, como fazem aqueles que falam exclusivamente do controle de nascimento. Na verdade, desde o início, Paul VI é guiado em sua argumentação para um conceito holístico (cf. do homem Humanae Vitae, 7) e de amor (cf. conjugal Humanae Vitae, 8, 9).

5. Você pode falar sobre a responsabilidade no exercício do paternos e maternos, sob diferentes aspectos. Assim, ele escreve: “Em relação aos processos biológicos, paternidade responsável significa conhecimento e respeito das suas funções, a inteligência descobre, no poder de dar a vida, leis biológicas que fazem parte da pessoa humana” (Humanae vitae, 10 .) Quando se trata, obviamente, a dimensão psicológica do “impulso do instinto e da paixão, paternidade responsável significa o necessário domínio que devem exercer sobre aqueles a razão e a vontade” (Humanae vitae, 10).

As premissas acima aspectos intra-pessoais e acrescentando-lhes “as condições econômicas e sociais, devemos reconhecer que a paternidade responsável” é implementado, quer com a deliberação ponderada e generosa de ter uma família grande, com ou decisão, tomada por motivos graves e respeito pela lei moral, para evitar um novo nascimento para algum tempo ou indefinidamente “(HV 10).

Daqui resulta que a concepção de uma “paternidade responsável” está contida a disposição não só para evitar um “novo nascimento”, mas também a crescer a família de acordo com critérios de prudência.

A esta luz a partir do qual é necessário examinar e decidir a questão da “paternidade responsável” é sempre
central “objectivo ordem moral estabelecida por Deus, que é a consciência de verdadeiro direito intérprete” (Humanae vitae, 10).

6. Os cônjuges, nesta área, cumprem “integralmente com seus deveres para com Deus, para si, seus familiares e a sociedade em uma justa hierarquia de valores” (Humanae vitae, 10). Você não pode, portanto, falar de “agir de acordo com sua própria vontade.” Em contraste, os cônjuges devem “conformar sua conduta com a intenção criadora de Deus” (Humanae vitae, 10).

Nesta base, a Encíclica baseia a sua argumentação sobre a “estrutura íntima do ato conjugal” e sobre “a ligação inseparável entre os dois significados do ato conjugal” (cf. HV 12), que já foi discutido anteriormente . O princípio da moralidade relação conjugal torna-se, portanto, a fidelidade ao plano divino manifestado na “estrutura íntima do ato conjugal” e “a ligação inseparável entre os dois significados do ato conjugal”.

(A tradução não é minha, o original: http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/audiences/1984/documents/hf_jp-ii_aud_19840801_it.html)

Afirmar que o Papa Francisco está a revolucionar ou a trazer algo de novo ao ensinamento ou pensamento da Igreja, neste aspecto, não está correcto. O Papa está, simplesmente, a reafirmar aquela que é a doutrina e o ensinamento da Igreja,

Agora, que digam que o faz de uma forma nova, compreensível a todos, aí sim, estamos de acordo. E diria mais: até que enfim! Temos um tesouro na Igreja, que, infelizmente, não estamos/estávamos, a saber transmitir. Não conseguíamos fazer passar a mensagem. Este Papa tem conseguido fazer-se ouvir e fazer-se entender. Tendo este caso como exemplo, todos ficámos a perceber o que a Igreja entende acerca da Paternidade: “não somos coelhos”… Pode ser uma linguagem que alguns achem menos digna de ser utilizada por um Papa, mas é de certo eficaz.

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