Amo ergo Sum

Nestes últimos tempos, há algo que me tem andado a inquietar, como que uma pergunta que não me deixa: qual é a essência do Homem? O que é que é mais característico do do homem?

Como espécie, somos definidos como homo sapiens ou homo sapiens sapiens. Aquilo que se realça, é a capacidade de saber, de conhecer. O raciocínio, a racionalidade. Devedores de Descartes(+1650), e do seu cogito ergo sum, parecemos estar convencidos que é esta capacidade racional que nos define.

Contudo, surgem alguns problemas. O século XX é o apogeu do pensamento humano. Nunca o homem conheceu, soube, pensou, racionalizou tanto como no século XX. Contudo, não houve século mais negro na história da humanidade como o século XX. A irracionalidade do nazismo deu-nos: «17 milhões de soviéticos (sendo 9,5 milhões de civis); 6 milhões de judeus; 5,5 milhões de alemães (3 milhões de civis); 4 milhões de poloneses (3 milhões de civis); 2 milhões de chineses; 1,6 milhão de iugoslavos; 1,5 milhão de japoneses; 535 000 franceses (330 000 civis); 450 000 italianos (150 000 civis); 396 000 ingleses e 292 000 soldados norte-americanos1» mortos.

Nas União Soviética: «Segundo dados soviéticos morreram no gulag 1 053 829 pessoas entre 1934 e 1953, excluindo mortos em colónias de trabalho2» . Isto só no gulag.

Como pôde a era da racionalidade, do pensamento chegar aqui?

Já neste século XXI, vimos um prémio Nobel da Paz mandar assassinar um ser humano, e festejou-se como se festeja a vitória do FCP do Campeonato ou da Taça3 e justifica-se – racionalmente – esses festejos4. Não discuto tanto a questão de se havia solução de levar Bin Laden a julgamento- se algum vez ele se entregaria ou se lutaria até à morte. Questiono o facto de se festejar a morte de alguém.

É isto a racionalidade? É este o primado da razão?

Parece haver uma falha – e grave – no caminho que a Humanidade tomou. A razão, esvaziou-se e levou àquilo que tanto luta contra: a irracionalidade. O Humano desumanisou-se.

Precisamos de mudar de paradigma. Então, o que pode ser mais profundo e essencial ao homem?

Ainda antes de Descartes, Santo Agostinho reconhecia outro aspecto essencial do ser humano: fallor ergo sum. ST. Agostinho reconheceu que o erro faz parte da vida, e pertence ao mais profundo do ser humano. É importante relembrar este aspecto. Contudo, parece-me ainda não ser suficiente.

Assim procuramos noutro lado.

São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios diz:

Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou. (1 Cor 13, 2).

O Amor. S. Paulo antevê algo de essencial ao homem, que ainda não conseguimos integrar. A essência do homem – do seu ser – é o Amor. Sem amor, não somos nada. Não é um amor qualquer. É o amor auto-doação, que ama sem esperar recompensa ou compensações. O amor que se dá sem medida. Que leva homens como S. Maximiliano Kolbe a dar a vida pelo outro5. O Amor plenificado em Jesus Cristo. Podemos conhecer «todos os mistérios e toda a ciência», mas é o Amor que nos realiza – torna naquilo que somos e devemos ser.

E percebemos através de S. Paulo: que quanto mais amo, mais sou – verdadeiramente humano. Quanto menos amo, menos sou. Por isso podemos. Não. Devemos mudar o paradigma: já não é fallor ergo sum, nem cogito ergo sum. Mas sim: amo ergo sum. Precisamos de perceber que é na medida em que o homem ama que se descobre a si mesmo, e o mais profundo do que é.

Não estou a dizer que a razão não é importante, os que me conhecem sabem que dou muita importância à razão – alguns até me acham demasiado racionalista. Antes, é a própria reflexão que me leva a concluir que a razão não é o mais constitutivo do homem. Não pode ser. A razão já demonstrou que só por si não consegue dar sentido à vida do Homem. Antes, percebemos que aqueles que vivem o Amor como centro da sua vida encontram sentido na sua vida, e levam uma vida mais humana.

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2 pensamentos sobre “Amo ergo Sum

  1. Ah que giro! Estou a dar numa cadeira a questão do Humanismo. Na Carta ao Humanismo, de Heidegger, diz-se que “humanismo é isto:meditar e cuidar para que o homem seja humano e não desumano ou in-umano, isto é, situado fora da sua essência.”. Para mim a questão fundamental é “em que consiste a humanidade do homem?”

    • Sim,a Carta sobre o Humanismo é uma das reflexões mais belas da filosofia do século XX. Pena é que Heidegger não tenho sido consequente com a sua reflexão, e não tenha assumido na sua vida o que no papel reflectiu. A sua adesão ao Nazismo é uma enorme incongruência, e tem feito questionar como é que o homem que nos traz o Dasein possa ter aderido, assumido e nunca se ter arrependido de aderir a tal ideologia.

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