Coragem e confiança na fidelidade

Pe. Emanuel Matos Silva

A fidelidade de Cristo como alicerce e alimento da fidelidade do Sacerdote foi o tema de fundo do Ano Sacerdotal que agora termina e deixa, na Igreja, o Sacerdócio perpetuado e reforçado na consciência da sua identidade, na redescoberta permanente da sua missão, na certeza da sua necessidade e na fidelidade aos caminhos da sua concretização. Jesus Cristo, na sua entrega, é a fonte configuradora do Sacerdócio que vivemos. Ser capaz de, em cada tempo e em cada lugar, não se reduzir ao que passa (passageiro) mas passar para Aquele (o Único) que não passa, é o mistério da fidelidade que é sempre grata e criativa na força do Espírito Santo. Os desafios do Ano Sacerdotal foram imensos e fizeram-nos pensar e rezar a nossa vocação, a nossa identidade e a nossa fidelidade.

O Sacerdócio sai reforçado até, particularmente, como inquietação para os que pudessem estar a viver tibiamente o Sacerdócio: tem razão de ser haver Padres; os Padres fazem falta essencial às Comunidades Cristãs; o Sacerdócio é um ministério estruturante na comunidade cristã; Os Sacerdotes são ordenados como colaboradores dos Bispos e são dados uns aos outros como irmãos; o ministério do Padre tem de se viver como representação sacramental do Sacerdócio de Cristo que o viveu como entrega plena; a representação de Cristo faz-se pelo serviço; as expressões da entrega plena a Cristo e à Igreja evidenciadas no celibato, na obediência e na humildade não são limitações, mas sim faces visíveis do mistério que sustenta a vocação e a faz feliz; muitas expressões de vida sacerdotal têm mais a ver com a pessoa concreta que é o Padre do que com o Sacerdócio em si mesmo; a vida dos Sacerdotes ganha sempre em qualidade teologal com a fraternidade entre os Sacerdotes e com a oração pessoal e comunitária; as formas de vivência sacerdotal juntamente com as formas de acção pastoral podem melhorar com a proposta da fé ao diálogo fé/cultura, fé/razão e com o diálogo com outros âmbitos do saber.

Padre pela força do coração e da oração, o Cura d’Ars foi modelo de santidade. Não o fizeram desistir da sua missão a Igreja vazia ao domingo, o confessionário deserto, a quase inexistência de prática cristã. Pelo contrário. Os habitantes de Ars não vinham. Mas o padre de Ars ia ao seu encontro. E a sua simplicidade e santidade foram um autêntico sacramento que ungiu aquela gente.

Na santificação do domingo e na atenção privilegiada à Eucaristia, na celebração amorosa do sacramento da reconciliação, na meditação da Palavra de Deus, na oração, na devoção a Nossa Senhora como Mãe dos Sacerdotes, no sofrimento e nas tentações, na reflexão da vocação e na tenacidade com que se vencem as provas, na caridade para com o próximo, na partilha dos bens, na simplicidade da vida, na pobreza radical, no compromisso social, enfim, sendo Pastor… João Maria Vianney deixou-nos um exemplo de como se segue Jesus no seu Sacerdócio, na Igreja e no mundo.

Ficam então claros alguns caminhos de realização da nossa fidelidade sacerdotal: a nossa maneira de viver como Padres é muito mais importante do que todas as coisas que façamos enquanto Padres; o que deixo Cristo fazer em mim é mais importante do que tudo o que eu próprio faço apenas por mim mesmo; a unidade no Presbitério e com o Bispo é mais importante do que deixar-me absorver pelo estrelato solitário; o serviço da Oração e da Palavra é mais importante que o serviço das mesas; construir comunhão e gerar sinergias é mais importante do que fazer o máximo de trabalho possível por si só e sozinho; estar plenamente presente (qualidade da presença) é mais importante do que querer estar em todo o lado mas sempre com o coração dividido; agir em unidade é mais importante do que agir no isolamento; a Cruz, porque mais fecunda, é mais importante do que a eficácia; a abertura ao comum (Comunidade, Diocese, Igreja Universal, etc.) é mais importante do que a atenção aos interesses particulares por mais justificados que pareçam; a vida presente da Igreja é mais importante do que cuidar da vida pessoal futura; testemunhar a fé é mais importante do que satisfazer apenas os requisitos religiosos habituais.

Pe. Emanuel Matos Silva, Vigário Episcopal para o Clero, Ministérios e Vocações de Portalegre-Castelo Branco

in Ecclesia

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